Comecei
a gostar de poesia muito antes de ter barba e passei a escrever as minhas por
volta dos 14 anos, quando tive minhas primeiras desilusões amorosas.
Até
entrar na faculdade não tinha mostrado nada do que escrevi a ninguém, a não
ser um ou outro versinho quando deixava meu caderno jogado por ai e alguém
acabava lendo sem interesse.
Ao
entrar na faculdade não imaginei que teria de mostrar meus versos a alguém,
muito menos a um professor. E foi o que aconteceu.
Logo na primeira ou na segunda semana, um professor propôs:
Logo na primeira ou na segunda semana, um professor propôs:
-
Gostaria que vocês me escrevessem uma memória. Pode ser em prosa ou em verso,
tanto faz. Mas quero que vocês contem algo da vida de vocês, algo legal!
“Serei
o melhor” pensei comigo
Eu
teria três dias e o final de semana até o dia de entrega da tal memória. Tempo
suficiente para exercitar minha mente e escrever algo bacana. A principio eu
iria escrever alguma historinha bacana de futebol, nos tempos em que eu era o
craque da camisa oito do avaízinho, mas preferi relatar uma diligência recente,
sobre um pé na bunda que levei em plena primavera de 2010, que me deixou mal a
ponto de desistir da faculdade de história e ingressar no curso de letras no
ano seguinte.
Não conseguia pensar em outra coisa pra escrever, a não ser essa historia.
Não conseguia pensar em outra coisa pra escrever, a não ser essa historia.
Era
uma terça-feira quente nas ruas se viam muitos enfeites para o maldito
carnaval, sem contar os carros de som com aquelas malditas músicas de boate gay
e os gordinhos sem camisa dançando por uma atenção. Tudo isso era um inferno
temporário que eu tinha de enfrentar a caminho da faculdade. Graças a mim e ao bom Deus eu tinha fones de ouvido que me privavam de parte dessa zona.
Ao chegar à faculdade notei que a aula já tinha iniciado e a professora estava lendo algumas memórias. Deixei meu manuscrito em sua mesa e sentei calado ao fundo da sala.
Ao chegar à faculdade notei que a aula já tinha iniciado e a professora estava lendo algumas memórias. Deixei meu manuscrito em sua mesa e sentei calado ao fundo da sala.
As
histórias que ela narrava pareciam tão fortes, com fortes quero dizer
histórias sinceras e vivas, que de certa forma tocavam quem as ouviam.
Ao contrário do que escrevi quase todas eram boas, falavam de fatos que marcaram quem as escreveu. Senti-me um pouco decepcionado. Eu iria entregar uma história boba de amor, um pé na bunda tão memorável quanto aquele golaço do Petkovic na final do carioca de 2001 em cima do Vasco, aos 43 minutos do segundo tempo. Repensei e a professora devolveu-me o manuscrito sem lê-lo e prometi a ela que iria modificar umas partes.
Mentira. Eu iria escrever uma história mais coerente e digna.
Ao contrário do que escrevi quase todas eram boas, falavam de fatos que marcaram quem as escreveu. Senti-me um pouco decepcionado. Eu iria entregar uma história boba de amor, um pé na bunda tão memorável quanto aquele golaço do Petkovic na final do carioca de 2001 em cima do Vasco, aos 43 minutos do segundo tempo. Repensei e a professora devolveu-me o manuscrito sem lê-lo e prometi a ela que iria modificar umas partes.
Mentira. Eu iria escrever uma história mais coerente e digna.
Tive
mais dias pra escrever outras histórias, mas não adiantou em nada. Cogitei
escrever as caminhadas de meu pai pelas estradas do sul do Brasil ou as visões
folclóricas que minha mãe teve na infância, mas preferi não me preocupar.
Deixei a história daquele jeito.
Por
fim, a professora leu e tornou a público alguns dos meus sentimentos. Aquilo
tudo não passava de uma brincadeira. Uma história de amor boba, escrita por
alguém mais bobo ainda. Não consegui escrever o que eu realmente queria: uma
história tocante e viva, mas aquele pé na bunda memorável, aquela história boba
de amor era o que até então me tocava.
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