sábado, 1 de setembro de 2012

É tudo tão intimidante e estranho



Comecei a gostar de poesia muito antes de ter barba e passei a escrever as minhas por volta dos 14 anos, quando tive minhas primeiras desilusões amorosas.
Até entrar na faculdade  não tinha mostrado nada do que escrevi a ninguém, a não ser um ou outro versinho quando deixava meu caderno jogado por ai e alguém acabava lendo sem interesse.
Ao entrar na faculdade não imaginei que teria de mostrar meus versos a alguém, muito menos a um professor. E foi o que aconteceu.
Logo na primeira ou na segunda semana, um professor propôs:
- Gostaria que vocês me escrevessem uma memória. Pode ser em prosa ou em verso, tanto faz. Mas quero que vocês contem algo da vida de vocês, algo legal!
“Serei o melhor” pensei comigo
Eu teria três dias e o final de semana até o dia de entrega da tal memória. Tempo suficiente para exercitar minha mente e escrever algo bacana. A principio eu iria escrever alguma historinha bacana de futebol, nos tempos em que eu era o craque da camisa oito do avaízinho, mas preferi relatar uma diligência recente, sobre um pé na bunda que levei em plena primavera de 2010, que me deixou mal a ponto de desistir da faculdade de história e ingressar no curso de letras no ano seguinte. 
Não conseguia pensar em outra coisa pra escrever, a não ser essa historia.
Era uma terça-feira quente nas ruas se viam muitos enfeites para o maldito carnaval, sem contar os carros de som com aquelas malditas músicas de boate gay e os gordinhos sem camisa dançando por uma atenção. Tudo isso era um inferno temporário que eu tinha de enfrentar a caminho da faculdade. Graças a mim e ao bom Deus eu tinha fones de ouvido que me privavam de parte dessa zona.
 Ao chegar à faculdade notei que a aula já tinha iniciado e a professora estava lendo algumas memórias. Deixei meu manuscrito em sua mesa e sentei calado ao fundo da sala.
As histórias que ela narrava pareciam tão fortes, com fortes quero dizer histórias sinceras e vivas, que de certa forma tocavam quem as ouviam.
 Ao contrário do que escrevi quase todas eram boas, falavam de fatos que marcaram quem as escreveu. Senti-me um pouco decepcionado. Eu iria entregar uma história boba de amor, um pé na bunda tão memorável quanto aquele golaço do Petkovic na final do carioca de 2001 em cima do Vasco, aos 43 minutos do segundo tempo. Repensei e a professora devolveu-me o manuscrito sem lê-lo e prometi a ela que iria modificar umas partes. 
Mentira. Eu iria escrever uma história mais coerente e digna.
Tive mais dias pra escrever outras histórias, mas não adiantou em nada. Cogitei escrever as caminhadas de meu pai pelas estradas do sul do Brasil ou as visões folclóricas que minha mãe teve na infância, mas preferi não me preocupar. Deixei a história daquele jeito.
Por fim, a professora leu e tornou a público alguns dos meus sentimentos. Aquilo tudo não passava de uma brincadeira. Uma história de amor boba, escrita por alguém mais bobo ainda. Não consegui escrever o que eu realmente queria: uma história tocante e viva, mas aquele pé na bunda memorável, aquela história boba de amor era o que até então me tocava.

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