sexta-feira, 20 de abril de 2012

Andando na rua.

É bastante terrível essa coisa de caminhar solitário e sem rumo em busca de um sorriso. Agora vejo pouco daquela menina nas vitrines.Antes quase tudo me lembrava ela e hoje apenas sei o seu nome. Mas agora já é  noite e o que sei é que ontem foi o aniversário dela e de tão bêbado e perturbado que estou, até disso esqueci.
Um jovem que se diz meu amigo. me persegue e pede explicações por eu ter fugido da festa. Eu grito com ele e digo frases cruéis, pois ele não é o tipo de pessoa que quero por perto - aquele tipinho amigo de todo mundo. Quando percebo estou caminhando e falando sozinho. O rapaz me abandonou, então estou perdido em uma rua que algum dia já passei. Torna-se ainda mais triste caminhar em ruas de bares em um sábado a noite, ver a classe alta tomando seus vinhos importados e gargalhando como lúcifer. Paro em uma esquina e sento ao chão e tento pensar no que fiz, lembrando que muitas vezes antes jurei não mais fazer isso, e olha como estou. Olho no celular e mau enxergo as horas, parece ser 00:54. O silêncio é  imenso nesta hora e perfeito! Não se ouve o maldito ronco dos motores, nem as canções da moda em alto volume.
Um carro da policia se aproxima, me levanto e os observo. Dois policiais saem do carro, nenhum grita, apenas me perguntam o que faço ali. Apenas respondo: " esperando um táxi ". Eles continuam com as perguntas:de onde venho, uso drogas, aonde moro,etc...Fora desta ordem vou respondendo a tudo. Eles me liberam e pedem para mim circular. Sigo o mandado e agradeço - nem sempre policiais são gentis, dei sorte.
Circulo na direção errada da rua, onde suas laterais são apenas morros asfaltados. Faço a meia volta para retornar a alguma rua conhecida.
Tenho 2 celulares na mochila, um sem bateria e o outro sem área, maravilha . Quero ligar para casa e pedir um táxi, mas vejo que terei de caminhar até em casa(atravessando 2 grandes bairros) ou procurar um maldito telefone público.E foi o que fiz.
Encontro um há alguns metros, em frente a uma farmácia onde uma amiga trabalha e acredite aquela porcaria não funciona. Minha falta de sorte estava gigantesca, que pensei em dormir naquela calçada. Tento caminhar em  direção de minha casa e no caminhar encontrar algum telefone que funcione. Penso em desistir, chorar ou morrer. Estou tão exaustou de rum e de falar, que meu corpo não suporta nem minha respiração.Sigo caminhando e cerca de 1km depois encontro outro,em frente a uma antiga fábrica de cerveja e novamente não funciona. Penso realmente em desistir, chorar ou morrer. Será que nada funciona ? Será que o gato preto que vi na sexta-feira está me perseguindo ? Inferno!
Subo um pequeno morro e encontro outro maldito telefone bem próximo ao emprego da minha mãe. Aproximando-me dele, prometo quebra-lo caso não vier a funcionar. Dessa vez funcionou. Telefonei para casa e ouvi a voz de minha amada mãe. Pedia ela que chamasse um táxi. Expliquei aonde estava e me acalmei. Logo logo o táxi chegaria.
Para compensar os 2 telefones que não funcionavam quebrei aquele como vingança.
A noite estava realmente agradável, sendo que eu era a única alma viva perambulando pelo centro. Uma brisa fresca surgia dando fôlego a minha insatisfação.
Sentei em um ponto de ônibus para esperar o táxi, que segundo minha mãe não demoraria a vir. Mas acabo cochilando e logo sou acordado com a buzina e os faróis alto em meus olhos.
Em casa minha mãe esperava-me sentada no sofá da sala, como faz sempre que chego tarde, como caminhei e praguejei tanto, já estava de cara limpa.
Ela me interrogou de forma curta:a festa tava boa ? foi muita gente ? porque chegou cedo ?
Está última pergunta me deixou emburrado e curioso, pois não costumo chegar tão cedo. Não era nem duas da manhã. Já não pensava mais no que fiz e no que falei poucas horas atrás, só pensei que se a menina vencedora do concurso de poesia(Carlota) tivesse ido, eu não teria ingerido e feito tanto merda.
A verdade era que eu estava apaixonado por essa menina há algumas semanas. A sua doçura e os seus gestos de simpatia colocaram no esquecimento as lembranças apaixonadas da menina aniversariante de ontem(Emmanuela) e que agora por educação e consideração deveria ao menos telefonar dando os parabens(mesmo atrasado).
Não estava completamente de cara limpa, pois não iria lhe telefonar jamais. Também faz parte disso,  correr como bobo atrás dela,há tempos.
Primeira tentativa:nada.
Segunda tentativa:nada
Terceira tentativa:nada.
Quarta, quinta, sexta,sétima:nada,nada,nada.
Eu havia esquecido o seu número, pois há muito não lhe telefonava. Creio que lá pela décima-quinta tentativa acertei o número, mas infelizmente não era ela, mas foi uma garota quem atendeu. Tentei me passar por um velho atrás da nora, mas ela logo desligou. Tentei mais algumas 5 ou 6 vezes. Não faria muito esforço, pois já estava vidrado em outra,e todas as lembranças de Emmanuela ficaram no meu caderno velho.Tentei mais algumas vezes,até que ela atendeu.

 - Feliz aniversário atrasado - digo eu
- Obrigado - responde ela
- Você sabe quem está falando ? pergunto-lhe
- Claro! Lembro-me perfeitamente de tua voz!
- Estava dormindo ?
- Não,não.Acabei de chegar da pizzaria com meus pais
- Bacana! Comemorou com os amigos também ?
- Sim,eles vieram aqui em casa pela tarde
- Bom,sei que você está com sono e quer dormir,então irei desligar.
- Ah,sim,tenho compromissos amanhã cedo,ou melhor,hoje.
- No domingo ?
- Sim! Farei uma prova pra trabalhar numa escola de dança para crianças
- Poxa,que bacana! Fico feliz por ti,boa sorte lá!
- Ah,obrigada,Salvador!
- Tenha uma boa noite,um beijo,se cuida
- Boa noite,também se cuide,outro beijo

E assim desligamos o telefone. Ela foi dormir e eu fiquei acordado vegetando, tentando pensar nos fatos tão precoces e estranhos que aconteceram. Há poucas horas atrás eu estava bêbado, chateado, caminhando sozinho e praguejando o tempo todo. Agora me sinto confuso e nostálgico, em razão dessa ligação. Eu adorava essa garota e há poucos dias julgava não pensar mais nela, pois tinha outra pessoa na minha cabeça, uma pessoa que não me deixava preocupado, nem frustrado.
Os meus dias estavam sem rumo, eisso é algo que eu valorizo demais, a minha falta de rumo, as surpresas, os acasos, os acidentes. Sempre me senti bem por não ter planos e seguir um rumo ou melhor dizendo, seguindo uma linha rabiscada.
Essa ligação é nada mais que a minha falta de rumo e domínio sobre minha própria existência.



Comendo pé-de-moleque e tentando escrever um romance,bom sábado!

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