Em minha vida, tudo o que me cativou e impulsionou a fazer coisas boas, foram os feitos do passado. Mas necessariamente do meu.
Não fui nenhuma espécie de mártir, nem de bem feitor. Apenas fiz coisas das quais me sinto feliz - não orgulhoso- por tê-las vivido. É um sentimento tão pessoal, cercado de lembranças e imagens, que quem ler isto, dificilmente irá entender. Ma se os que lerem fizerem um pequeno exercício de memória e pensarem nas coisas boas que lhes aconteceram há 2 ou 3 anos atrás, sentirão uma saudade enorme, abrirão um tímido sorriso e pensariam como seria bom viver parte daquilo de novo, até mesmo de uma forma diferente.
Embora me sinta em êxtase quando me vejo numa louca hipótese de reviver o passado, confesso que isso me chateia, pois pareço um museu que vive no passado e esquece o presente e a infinidade de oportunidades e novos caminhos que nele podem surgir. Mas também, sou uma pessoa muito amedrontada e tenho enorme pavor do futuro. Desde pequeno sinto medo das coisas novas - talvez seja por isso que aprecio música de cantores mortos. Dentro desse medo, há um medo intimo, de no futuro ser outra pessoa, digo, pior do que já sou. Um ser insatisfeito comigo mesmo. Me conforto apenas em lembrar-me da passado - que de certa forma pode influencia nos dias presentes.
Após minha entrada na faculdade, senti-me tão desolado como nunca. Havia passado um período de 7 meses em casa. Trancafiado com livros e longe do convívio humano.
Agora que estava entretido entre estudantes e trabalhadores, comecei a sentir uma solidão dos infernos. Não era carência de amor - graças a Deus me livrei desse tipo de problema.
As pessoas apesar de estarem sempre perto de mim e algumas julgarem simpatizar e adorar o meu jeitinho estranho, sinto elas tão distantes.
- Você é louco garoto - disse uma colega de sala após assistir eu malhar o pau nas adaptações de bons livros para o cinema.
- Tens razão - disse a professora de literatura prosseguindo com seu extenso relato.
Algum tempo atrás eu já tinha notado que apesar dos anos terem passado -e com isso ter amadurecido, certos hábitos e opiniões jamais mudaram. Como julgar tudo o que é novo no campo da literatura e da música, uma grande bosta.
Devido a isso continuei sendo simpático e atencioso com todos, porem, comecei a ficar calado durante as aulas. Também me afastei das pessoas. Não tornei e me trancar no quarto, mas por exemplo; pegava o ônibus sozinho porque quase nunca tava afim de dar atenção a alguem, nem de ficar de conversinha, amizades e tapinhas nas costas pra depois sair de abracinho por ai. Chega disso! Chega dessa merda de amizade moderna!
A partir desses dias chegava no campus sozinho, acenava para um ou outro e entrava na sala e me atracava na leitura até a chegada do professor. E quando estava sem paciência para o livros, simplesmente sentava do lado de fora com meus fones de ouvido e observava a movimentação no inicio da noite.
- Tá sem aulas também ? - pergunta um rapaz vindo em minha direção enquanto flertava as estrela. É Xavier, estudante do 2º ano de letras, que aos poucos me cativa com seu jeito fiel. É um dos poucos a quem me apeguei.
- Não, infelizmente não! - respondi tirando os fones - A professora ta atrasada mesmo.
- Pô cara! Que tal aparecer no bar depois da aula ? A professora de língua inglesa faltou e estou indo pra lá. Não tá afim ?
- Não, estou bem tranquilo.
- O que houve ? Tá tudo certo ?
- Tudo certo,mas to sem animo pra tudo. Até vou sair mais cedo da aula.
- Tu que sabe cara, se ficar afim, apareça.
Foi nessa época que fiquei alguma semanas sem beber devido a uma gripe dos infernos que me impediu até mesmo de escrever. Ir ao bar nem me passava pela cabeça.
Continuei sentado no banco por mais uns minutos até descobrir que a professora tinha faltado para fazer um curso na capital. Para minha alegria, essa noticia me fez chegar bem antes das 22 horas em casa, bem tranquilo e sem saber o que fazer, pois durante o percurso encontrei diversas garotas lindas, com sorrisos de diamantes. Mas não conseguia empolgação com elas. Desde que fiquei naquele longo período em casa, senti a falta de alguem, mas o pior de tudo era que dificilmente conseguia gostar de alguem. Talvez por estar apegado demais ao meu passado. Diversas vezes tentei uma aproximação, mas acabava me afogando nas velhas lembranças e me impediam de progredir no presente.
Um dia comecei a vasculhar o computador em busca das fotos do tempos em que eu era ingênuo e feliz(sem saber) com um sorriso tímido de canto de boca. Também vasculhei gavetas onde encontrei cartas daqueles dias. Era tudo fascinante e triste, tantas que não me levariam a lugar nenhum.
Senti um misto de tristeza e alegria em rever tudo aquilo. Mas não poderia prosseguir desse jeito.
Guardei tudo e fui a janela olhar o quintal, a rua, o céu. O inverno já tinha chego, mas a noite estava fresca.
De longe ouvia o latir perdido de alguns cães, que deixavam a entender que eu não estava na noite.
Conclui que por serem animais que vivem sem rumo nas ruas, estão cheios de uma alegria e uma certa sabedoria obtida nas ruas, e cada novo dia eles a usavam para renovar suas vidas. Era disso que eu precisava.
No dia seguinte fiquei despreocupado com tudo. Limpei a casa enquanto minha mãe fazia compras, fiz o café para minha irmã e telefonei para meu pai para saber como estava.
Pela noite tudo estava harmonioso e alegre. Eu queria renovar tudo e não pensar mais no passado. Queria renovar tudo em mim, meus medos, meus prazeres, minhas idéias, meus olhares sobre a vida. Em breve teria férias(esse tempo foi útil) que poderiam me ajudar a compreender a mim mesmo mais ainda.
A professora de língua portuguesa ficou horas agradecendo pela nossa colaboração no sarau do dia dos namorados - uma grande bosta. Todos prestaram atenção em sua voz.
Ao fim do discurso de lamúrias, algumas meninas foram até a professora para tirar dúvidas.
Era o fim da aula. Saí com meus fones e meu livro para relaxar lá fora
No meio do corredor surge Xavier sorridente
- E ai garotinho juvenil, tá lendo o que ? - disse Xavier me abraçando.
- Adeus as armas, Ernest Hemingway - respondi mostrando-lhe a capa.
- Bacana!
- E tu ? Tá lendo algo cara ? - indaguei para fluir um papo
- Sim, Dom Quixote, Miguel de Cervantes.
- Parece bom - disse sorrindo
- É sim, demais!
Então Xavier começou a explicar todo contexto da obra e as razões que levaram o autor a fazê-la. Nesse mesmo momento a turma toda começou a sair da sala, e as outras turmas também. Xavier e eu estávamos estacionados no corredor, expostos a olhares e esbarrões. Muita gente começou a trafegar entre nós. As vezes desviava meu olhar de meu hermano e observava de súbito por ali passava. Quase sempre era alguem sem muita importância.
Do lado oposto do corredor, vinha vindo três veteranos do nosso curso; um rapaz de uns 25 anos - provavelmente já formado em física e geografia, um menina gordo, homossexual - amigo de um amigo meu também homossexual- usando um boné de desenho japonês e uma menina loira de uns 21 anos com roupa de sport.
Eles se aproximam de mim e começo a dividir meu olhar entre os passos lentos a menina e a extensa prosa de Xavier. E conforme ela foi se aproximando, menos olhava para Xavier. Quando passou rente ao meu corpo, olhei de lado para ela, que percebeu e me retribuiu com um olhar de malicia e superioridade, de quem não está nem aí para minha pessoa. Mas continuei a olha-la e então notei que ela têm lindos lábios e m rosto tão alvo e belo como seu cabelo loiro.
Por parecer malvada, me atraí ainda mais.
Ela passou e me olhou com cara de ódio por mais uns segundos e deu-me as costas.
Xavier concluiu sua prosa e também se foi.
Continuei olhando a menina de costas e pensando como alguem que me olha de forma tão rude pode me encantar tanto. Eu sabia que não podia com ela. Era linda mais. Mas como me aproximar ?
O pessoal dos anos a frente(de letras) nem ao menos olham para nós calouros. E ela nem ao menos parece gostar de poesia e literatura. E com esse meu jeito triste, nostálgico e singelo, não poderia encanta-la de modo algum.
Aquela curte troca de olhares era o principio de uma mudança, e esses pensamentos sobre a menina-loira-ardente-e-rude me envolveram mais naquela renovação que especulei em minha mente.
Não estava tão ligado ao passado, somente as lembranças boas, pois ao lembra-las eu sorria, e meu sorriso timido poderia - talvez- encantar aquele menina
As lembranças ruins eu não iria esquecer tão fácil, lembraria delas apenas para ter força e sabedoria para renovar minhas idéias e iluminar meus dias.
Fiquei olhando a menina caminhar até o fim do corredor e dobrar a esquerda e sumir.
Entrei na sala flutuando e fiquei olhando o céu pela janela.
Não poderia pensar no futuro sem ao menos olhar para o céu.
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