Na sacada de um hotel com a vista para o mar, um pobre homem contempla a beleza do mar e desfruta do dinheiro que roubou no últimos dois meses. De sua enorme espreguiçadeira ele consegue ver quilômetros e mais quilômetros de um mar azul-esverdeado, as ondas e brumas que nem de longe interferem em seu gozo. Sem contar no pôr-do-sol e os bares dos quais todo dia se delicia com os pratos mais deliciosos e os drinks mais exóticos.
Embora ao seu redor tenha milhares de prazeres a serem aproveitados, o que ele realmente gosta é de olhar o mar, o nascer e descer do sol.
Pensava consigo toda manhã: "nunca mais pretendo dividir o meu olhar sobre as coisas, quero ter essa visão extensa e completa da vida. Seja do sol, da lua, do mar ou até mesmo da chuva. Não quero enxergar nada pela metade, nem por frestas e curtos espaços. Quero uma visão completa de tudo".
Passado alguns meses, o mesmo homem acordou com o corpo todo dolorido. Já não estava mais em sua cama box, nem no luxuoso sofá da sala. No abrir das pálpebras não se via mais as paredes perfeitamente decoradas com detalhes requintados nos caríssimos hotéis onde ficava. Todas elas eram semi-negras, acinzentadas, sujas, frias, tristes. A única luz que tinha, surgia de muito longe.
Ao sair do pobre leito, o homem sentiu o chão frio e imundo gelar todo seu corpo. Só ouvia batidas em latas de alumínio vindas do fundo do corredor e passos vagos de um par de botas calçados por alguem muito pesado.
Demorou pouco tempo para notar que tinha sido preso. Por ter concluído ensino superior em ciências biológicas, o recém-detido tinha direito a uma cela exclusiva com um pouco mais de luxo. Só um pouco. Mas pelo excesso de presos naquele distrito, teve de ser transferido em três semanas. Levou todo esse tempo até acharem um presidio com uma cela desocupada.
A primeira vez que acordou na nova cela não foi pelo horrível barulho da faca do vigia batendo por sequência nas grades. Acordou por uma luz quente e dourado que há alguns minutos já queimava seu rosto. Nem ele mesmo acreditou estar vendo o sol outa vez. Eram pequenos fragmentos daquela luz, porque dessa vez, a sua maravilhosa visão da vida, tinha sido subdivida. Olhar o sol e o céu, agora só mesmo através das grades da janela de acesso ao pátio.
E o mar ? Só veria mesmo se ganhasse uma televisão - o que nunca aconteceu.
Em algumas manhãs de primavera ou outono - nem ele mesmo sabia a estação de tão horrível que seu espirito estava. Por vezes recusava-se sair da cela para tomar o banho de sol, nem ao menos bater uma bola ele fazia. Criou uma espécie de medo, trauma do sol. Talvez não quisesse dividir com mais ninguém quando estivesse sob essa luz. Em sua cabeça passava poucos pensamentos. Um dos que mais perpetuavam em suas 24 horas de solidão era algo como: " Eu poderia continuar morando naquela pensão semi-imunda , ganhar aqueles benditos mil reais do governo pelo meu trabalho de professor. Compraria leite, ovos, pão, salsicha e cerveja. Compraria uma televisão maior assim que possível. Trocaria o sofá e as cortinas. Realmente eu nunca precisei daquela quantia de dinheiro público. A minha vida toda sempre julguei-me humilde. Eu apenas fui aliciado por mentes potentes que usaram o argumento de que aqueles roubos era apenas 'expropriação do dinheiro publico e o governo rouba muito mais'. Essas mentes que me aliciaram eram meus amigos de longa data, que cresceram comigo em meio a pobreza e quando se nasce pobre, um sorriso de um amigo pesa muito.
Driblei toda pobreza ao sair daquela vila imunda. Ajudei meus pais a comprar uma casa melhor.
Não precisava disso. Nunca precisei daquele dinheiro. Não mesmo.
Fiz apenas favores que transformaram-se em crimes e hoje estou aqui e não os culpo por isso. Eles continuam sendo meus amigos. Ninguém me traiu. Eu trai a mim mesmo caindo no papo deles. Eles agiram por suas índoles de sempre. Não sei onde estão. Espero que bem. Mas por fim, eu apenas fui aliciado e cúmplice. E hoje estou aqui, mas e dai ? Quem poderá acreditar em um miserável ? Eu me contentaria com aquela janela e os seus vidros quebrados, mas não dividiria o sol com ninguém, mesmo que estivesse passando fome."
Durante meses esse pensamento era o que perpetuava em sua cabeça inocente. O sol para ele era como uma substância que deixava-o contente com tudo. Só que agora ele realmente tinha que ver o sol divido entre as grades da janela. Por vezes evitava de vê-lo. Não o queria em parcelas, queria-o completo, mas só podia isso nos banhos de sol. Mas ele queria sempre, sempre, sempre.
Dois anos após sua prisão, ele foi libertado pois alguem pagou sua fiança. Pouco se soube quem foi. Mas todas as notas eram legais e a pessoa que assinou tudo não quis identificar-se. Mostrou toda sua vida para não desconfiarem dela.
Provavelmente foi algum serviço de caridade de algum bandido que fora seu amigo na infância. Se o plano realmente foi esse, fora muito bem feito.
O agora ex-detento retornou para sua casa e passou dias e dias do verão tomando café e almoçando diante de sua janela. Tinha a visão do sol e da lua na companhia de um radinho de pilha, e nos dias de chuva sua companhia era de um livro. Sua vida tinha retomado os trilhos. Ele não tinha se tornado um novo homem. Nada nele mudara. Apenas sentia-se um pouco ruim ao lembrar dos dias em que viu o sol dividido. Pretendia não mais falhar para nunca mais ver parcelas de luzes, nem paisagens pela metade. Tudo nele seria completo.
O que o homem não sabia é que sua vida estava eternamente dividida entre caminhar lúcido e de olhos abertos ou fecha-los e violar a si mesmo.
Boa sexta-feira!
Nenhum comentário:
Postar um comentário