quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A luz do sol sobre ela

Quando o ano começa tenho a estranha surpresa de reencontrar velhos conhecidos que há muito não vejo. Uma espécie de ritual para o recomeçar outro ano. Toda vez que caminho nos terminais de ônibus e lojas de sapato e camisas, sinto que em algum canto ou esquina irei encontrar tais demônios de outros dias.
Bem no começo deste ano, eu retornava da casa de minha amada bastante alegre por vê-la depois de tanto tempo do qual esteve em viagem. Nos despedimos por longos minutos - a saudade ainda reinava e restava em nós. Parti de sua casa por volta das nove horas da noite e caminhei sozinho na noite quente de fevereiro até o terminal de ônibus do bairro central.
Meu ônibus iria chegar em menos de dez minutos e como o percurso do terminal até minha casa é um tanto longo e me serve para leitura, apanhei meu livro inacabado enquanto o ônibus não chegava. Naquele horário, justamente em função da época do ano pouca gente se encontrava ali. Os poucos que trafegavam retiravam minha atenção da leitura.
Numa dessas olhadelas por cima do livro, avistei há uns sete metros uma ex-conhecida. Uma menina que cometeu a loucura de apaixonar-se por mim em pleno natal.
 Ela caminhava acompanhada de um rapaz que pouco lembro a fisionomia. Apenas lembro que era muito mais feio do que eu. Eles conversavam cautelosamente em libras e pelo que sei  ela não é surda nem muda, então o que tudo indica, é que o rapaz é o defeituoso da conversa. Ela caminhava vagamente e seus olhos acompanhavam perfeitamente a gesticulação de seu pobre amigo.
Ao vê-la ali lembrei do quanto aquela menina sonhava na vida. Tinha um enorme coração que possivelmente queria me acolher. Batalhava o dia inteiro para ajudar sua mãe em casa - já que esta fora abandonada pelo marido e pai dos filhos há cerca de uns nove anos. Cristina era o nome dela. Queria ser fotografa e escritora e ao mesmo tempo desejava profundamente ajudar a construir um mundo mais humanitário e puro. De várias formas ela me cativou, tanto que se eu fosse mais fraco do que sou, hoje poderíamos estar casado ou coisa do tipo, pois ela desperdiçava suas horas de folga me esbanjando carinho e atenção, ao invés de estar descansando.
Cristina me deu a honra de ficar com uma das cópias do manuscrito de seu livro, que contava através de relatos, a história de sua mãe. O sofrimento enorme que era os dias do pai sem ter um, de ver o irmão mais novo jogar bola e não ter com quem compartilhar as vitórias. Tudo o que Cristina queria era ajudar as pessoas e ser amada, infelizmente eu queria ter feito isso na época, mas minha loucura e tristeza do fim de ano não deixou. Havia escrito poemas para ela, poemas que ela jamais leu, pois a mesma exagerava nas doses de carinho. Não podia mais enganar ela, então dei um fim em tudo para nem eu nem ela equivocar os sentimentos assim como muitos.
O menino surdo ou mudo que lhe acompanhava tinha os olhos vidrados em seus grandes lábios de morena. Quando Cristina não falava e só sorria ele admirava seus cachos negros presos por um lápis em sua cabeça. Era a amizade que Cristina sempre desejou e necessitou. Não sei enfim qual era o defeito do rapaz, se a sua boca não podia tecer as palavras que saíam de seu coração, os seus olhos angelicais e vidrados na beleza de Cristina transmitiam sua ternura de forma artística, ela não poderia rejeitar jamais qualquer investida do garoto. Seria um insulto a si mesma.
Recentemente o livro de Cristina fora publicado e de alguma forma fiquei feliz por ela. A história era uma merda, mas todo esforço dela agora estava explicito nas prateleiras de algumas livrarias.
Quando cansei de ficar olhando todos esses gestos eu já sentava dentro do ônibus relembrando tudo isso com o livro em meu colo. Era dali que vi os olhares esperançosos do garoto.
Dei uma última olha em Cristina e o seu amigo. A cena destes encantou meu dia.
Quando o ônibus roncou o garoto pegou Cristina pela mão, olhou no interior brilhante dos olhos dela e a beijou calorosamente passando a mão em suas costas deixando os corpos sumamente colados.
Já não me importava mais com nada, nem olhava-os mais. Estava afundado na leitura e assim fiquei feliz.
O mundo dos sonhos de Cristina se desenhava nas paredes brancas da vida.
Ela não preocupava-se com nada, tudo o que era bom viria para ela.
Ela já sorria sem prever isso.





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