A alegria da minha vida estava alternando-se quando recebi aqueles comentários a respeito da cor de minhas roupas. Não foram comentários ridicularizando minhas vestes, insinuando serem feias, baratas ou desbotadas, nada que ofenda meu pobre guarda-roupa.
Eu tinha levantado cedo em uma manhã de fevereiro para me despedir de minha amada que iria viajar para Assunção no Paraguai, para ficar por lá de dez á quinze dias. Vestia uma camisa verde musgo que junto a luz do sol deixava-me radiante, alegre e chamativo entre as centenas de trabalhadores engravatados, vestidos de blusa-social três números maior, com calças
até o pescoço e sapatos de matar barato no canto - assim meu pai
denominava os sapatos de um tio meu.
Eu era quase um anjo alegre penetrando entre eles com aquela veste.
Caminhei do aeroporto ao trabalho, por cerca de quarenta minutos. Não me sentia incomodado com a condição de pedestre ao invés de gastar mais uma passagem de ônibus. Caminhar é pensar.
Foi caminhando que obtive meus melhores pensamentos e minhas conclusões mais exatas.
Quando cheguei no trabalho, com o rosto branco encantando as moças da recepção e do departamento administrativo, fui logo ao banheiro e vestir meu guarda-pó sobre a blusa verde.
Senti no ar uma sensação de que todos me amavam, de que aquele colorido da minha roupa contagiava o ambiente.
Nunca havia me importado com a cor da minha roupa. Sempre pegava a primeira que estava passada no quarto da roupa.
Durante os dias em que minha amada se ausentou, senti que as mesmas mulheres que me cortejavam no silêncio de suas salas e na solidão de suas mesas, agora apenas me olhavam para cumprimentar, sem sorriso, nem elogios. Apenas o cumprimento da boa norma de dar uma saudação logo pela manhã.
Passado uns onze dias, uma moça que trabalhava no setor de rh, veio até o almoxarifado enquanto eu empilhava caixas e indagou:
"Tá tudo bem contigo, Salvador ?"
"Tudo certo" respondi "Aconteceu algo ?"
"Eu que lhe pergunto..." disse ela confusa
"Não não, tá tudo certo mesmo" respondi desconfiando de algo
"Bom, não sei se sabe" disse ela em um tom de voz mais sútil "Todo estão comentando que há uma semana você está com um semblante triste, amargo, sem ânimo algum pra vida"
Estranhei completamente aquilo. A ausência da minha amada me trazia uma certa dor, mas era algo tão passageiro quanto um trem. Tinha a convicção que o tempo correria e logo ela estaria em meus braços.
Nos falávamos toda noite por telefone e a cada três eu perdia o sono, pensando nela. Mas não julgava ser tão prejudicial assim, a ponto de afirmar uma tristeza em meu semblante.
"Olha, não sei o que há nos olhos destes pérfidos colegas, mas aqui tá tudo bem" disse olhando para ela querendo encerrar o papo ali.
Fiquei mais alguns dias notando esses olhares. Tentava encontrar o erro em meu rosto. Não era a barba, estava sempre bem feita. O cabelo também não era, nem os dentes, nem espinha, nem algum tipo de conjutivite ou inflamação.
Um dia antes de minha amada retornar de viagem, ela me ligou dizendo que iria me buscar depois do expediente para que fossemos em sua casa matar a saudade e contar as novidades.
Acordei cedo assim como acordei no dia em que ela partiu de viagem.
Caminhei como se fosse uma criança de brinquedo novo e doces na mão. Trajava uma camiseta vermelha, semi-nova que minha tia me deu. Radiava outra vez entre os paletós acinzentados dos advogados pré-formados.
Cheguei no trabalho e vi que aqueles olhares de tristeza que carregavam junto aos meus passos, não mais existiam ali. Todas as moças me olhavam-me dando longos bom dias, com sorridentes brilhantes.
Elas eram bonitinhas, mas não me faziam a cabeça.
Trabalhei o dia todo e encontrei Lindinha tão linda como sempre. Passamos longas horas rindo em sua cama, felizes pela vida que nos unia.
Uma alegria inigualável nos cercava, tanto que perdi a hora e tive de dormir lá.
Ela cansada da viagem, dormiu em meu peito logo cedo. Fiquei pensando porque todos me diziam estar triste. Ninguém ali sabia que minha namorada fora viajar. Ninguém mesmo.
Senti vontade de ir ao banheiro e quando levantei pisei no chão e notei minha camiseta vermelha. Era uma cor bela e viva, praticamente minha preferida.
A sensação mais deleitosa da vida é um beijo da mulher amada, a segunda melhor são as cores, que tornam a vida sincera e bela. Os que pensam que os cegos perdem muito em não enxergar o preto, o vermelho, o roxo, o azul e outras cores, perdem mais ainda, pois os cegos têm uma dimensão de um universo colorido, de cores impossíveis que compõe uma vivacidade, que nós que enxergamos, jamais saberíamos defini-los.
Olhando a camisa e refletindo sobre sua cor, saquei que o que me deixava triste naqueles dias, eram minhas vestes preta, cinza, marrom, azul marinho. Cores tristes e mortas. Mas eram minhas cores preferidas, que usava quase sempre.
Ao contrário das roupas coloridas e alegres, que eu só usava para ver o meu amor.
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