segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Cartas molhadas - I

Após uma noite de muita cerveja e conversas profundas, meu amigo Horácio e eu cochilamos  no sofá de minha casa até o nascer do sol . Quando notamos que a luz já havia penetrado pela cortina dos fundo, olhamos um para o outro preocupado, em seguida olhamos para o relógio da parede. Já era hora do meu amigo partir.
Lavei o rosto e lhe acompanhei até a rodoviária. Caminhamos silenciosos e de cabelos molhados. Não tinha mais o que falar, a noite passada foi tão sincera que nossas palavras já estavam uma na cabeça do outro. 
Pedimos um café enquanto seu ônibus não chegava.
Um senhor surgiu no saguão, segurava um ramo de flores e ostentava um belo sorriso.
"De amor e poesia, o homem renasce todo dia" disse eu quebrando o silêncio
Horácio ascendeu um cigarro, coçou a cabeça e olhou por cima de mim
"Tudo bobagem, só os tolos amam" disse Horácio
"Bobagem" retruquei " Tudo isso está escrito no coração de cada um. Mas todo homem é tolo, nisso concordo. É tolo, pois sempre nega os sentimentos, os sentimentos próprios que lhe guiam pelos terrenos mais planos e coloridos, mas se afoga no medo de machucar. Acha que todos em sua volta vão lhe insultar por isso. Não há nada mais lindo que um homem apaixonado como este que a pouco passou aqui" respondi eu olhando para o relógio e no olhar demonstrando que já era hora do ônibus chegar.
"Continua sendo bobagem, amar é perder tempo, viver sem amar dura mais, dói menos" retrucou Horácio tomando secando a xícara de café.
Descemos a escada em direção ao saguão de embarque em silêncio. Aquele papo entre as mesas do café não tinha importância nenhuma. Nada afetaria nossa amizade, mas era um assunto delicado para mim. Eu, que sabia o que era amar e sabia o que era sofrer, e acima de tudo, sabia o que era superar e estar pronto para amar outra vez, não gostava que as pessoas enxergassem o amor sobre uma mulher como algo prejudicial. Precisava retomar aquele assunto antes que o ônibus chegasse.
" Como sempre, estes ônibus estão atrasados " reclamou Horácio ascendendo outro cigarro e olhando ao relógio.
" Tudo o que é ruim , chega sempre na hora exata, principalmente as notícias" disse eu
Ficamos embasbacados naqueles poucos minutos na estação. Precisava e queria retomar aquele assunto, mas não queria complicar nossa despedida. Os ônibus chegavam, logo saíam e eu não abria a boca a não ser para bocejar.
" A verdade é que todos que um dia amaram, sofreram demasia por mais tempo e em momento algum não recordaram do que se passou. Podemos é claro, relembrar e sentir uma tristeza por aqueles jamais voltarem. Um dia na América do Sul, um sábio disse "  Não lamentes por que acabou, sorria porque aconteceu" . Essa é a verdadeira essência do amor: simplesmente viver, recordar, e não abrir a boca para reclamar."
O ônibus chegou. Horácio não falou nada, mas eu estava livre deste peso, tinha dito o que era pra ser dito, a minha verdade deixei pública ao mais fiel de meus companheiros.
Horácio entrou no ônibus e da janela ficou conversando comigo, ou melhor, apenas sorrindo e prometendo me escrever e enviar presentes. Eu lhe prometia o mesmo.
Quando o motor do ônibus roncou, ele proferiu as seguintes palavras:
" Continuo achando a mesma coisa: que só os tolos amam"
Não queria mais discussão ou ficar atônito.
O ônibus enfim iria partir e meu amigo voltaria pra seu lar. Antes do ônibus partir também deixei meu adeus em minha opinião.
" Se for do teu jeito, acredite, quero sempre ser o mais tolo"
O ônibus parti, e eu voltei para meu quarto para dormir pelo resto do dia.







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